Insights Bienal de Arte de Veneza 2017

Por Juliana Medeiros para Portinari

A Bienal de Arte de Veneza 2017 está quase chegando ao fim, foram seis meses de exposição na 57ª edição do evento. VIVA ARTE VIVA, uma exclamação, uma expressão de paixão pela arte, pelos artistas e pelo que a arte é capaz de despertar. Uma exposição inspirada pelo humanismo, um humanismo que celebra a habilidade do homem por meio da arte de demonstrar resistência, libertação e generosidade. As obras de arte e instalações retratam problemáticas da sociedade atual, como imigração e desigualdades sociais. “Em um momento de desordem global, o papel, a voz e a responsabilidade do artista são mais cruciais do que nunca no âmbito dos debates contemporâneos”, diz Christine Macel, curadora do Centre Pompidou, que fez a curadoria dos artistas para essa edição da Bienal de Veneza.

Exposições e instalações em vários pontos de Veneza demonstram como a arte é a expressão de quem intui de forma mais sensível a direção que estamos tomando na sociedade, alertando e despertando reflexões. A atmosfera da Bienal deste ano é de um desejo incansável por paz, uma vontade de fazer com que o mundo perceba as mensagens que estão sendo passadas em cada uma das exposições e que tudo isso reflita em possibilidades de mudança.

Consciência, reflexão e colaboração

Support, a escultura do artista italiano Lorenzo Quinn, apresenta duas grandes mãos que emergem do grande canal de Veneza como uma declaração sobre o aquecimento global.  “A mão tem poder de amar, odiar, criar e destruir”, diz o artista. Na obra, a mão parece remeter à natureza que, da mesma forma que pode destruir, devido às mudanças climáticas, pode também proteger. A instalação expõe a fragilidade do nosso ambiente construído e natural e sua suscetível exposição às forças da natureza e do homem.

O pavilhão Alemão ganhou “Leão de Ouro” com uma exposição de Anne Imhof, que desconcerta e incomoda. É uma grande área completamente coberta por um piso elevado em vidro, onde ocorrem performances de artistas junto aos visitantes. Embaixo do piso, vestígios, peças utilizadas e artistas rastejando na baixa altura presente no espaço. A música é áspera e estranha, a sensação de vertigem passa em alguns minutos, mas caminhar sobre pessoas inquietas e melancólicas que parecem estar em uma espécie de “esconderijo”, em sofrimento e angústia, é desconcertante. A performance fala sobre a vida contemporânea, sobre como vivemos expostos nas mídias sociais, como tratamos a nós mesmos e uns aos outros como personagens a serem observados e documentados a todo tempo.

Green Light, do artista dinamarquês Olafur Eliasson, uma experiência de acolhimento, boas-vindas aos refugiados, ocorre no pavilhão central da Bienal. Mais de 80 participantes, de países como Nigéria, Síria, Iraque, Somália, entre outros, trabalharam junto ao público utilizando materiais reciclados para fabricar luminárias. A luz verde simbolicamente ilumina o valor do trabalho colaborativo e do pensamento sobre o que podemos fazer para propor mudanças e possibilidades de inclusão. Uma campanha de angariação de fundos que beneficia duas ONGs de apoio aos refugiados e proporciona socialização entre os imigrantes e os moradores das cidades que os recebem.

O pavilhão Brasil se apresenta com “chão de caça”, da artista mineira Cinthia Marcelle. A instalação gera a sensação de prisão, instabilidade, desconforto ao caminhar na grade elevada e inclinada ao longo das galerias do pavilhão. Cordas soltas pelo espaço, um filme com cenas de uma rebelião passa sem parar e panos brancos parecem pedir espaço e paz. A instalação teve curadoria de Jochen Volz e recebeu menção honrosa durante a Bienal.

O pavilhão França foi transformado por Xavier Veilhan em um grande estúdio de gravação colaborativo, o Studio Venezia, um espaço musical que reúne técnicos de som, produtores e músicos de todo o mundo para colaborar durante o período da Bienal. As apresentações não tem hora marcada, a qualquer momento podem começar a acontecer e os visitantes são livres para observar, escutar ou até mesmo interagir e fazer parte da construção do som do momento. A proposta foi unir artistas, técnicos e visitantes para colaborarem na construção de sons únicos. É possível escutar algumas gravações em “Studio Venezia Recording Session” no Youtube.

Em local de destaque, em frente ao pavilhão central da Bienal, o artista brasileiro Paulo Bruscky fez parte da mostra oficial com sua instalação “Arte se embala como se quer”. O artista e sua equipe chegaram ao jardim da Bienal em gôndolas de Veneza, carregando as caixas e posicionando-as de forma aleatória no espaço para a instalação. As caixas vazias, com o selo “Arte se embala como se quer”, como uma crítica a obras de arte sem significado no cenário contemporâneo.

Paulo Bruscky

Essas foram algumas das exposições visitadas. É impossível ficar indiferente aos temas abordados pelos artistas e a atmosfera presente na Bienal de Veneza dessa edição.

Viva arte Viva! Que a arte, as formas que os artistas encontram para demonstrar suas inquietações e preocupações ganhem cada vez mais espaço e interesse na percepção das pessoas.

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